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Não há relação entre o tratamento com antidepressivos e o risco de cancro nas pessoas com VIH
Michael Carter, Monday, June 09, 2008
De acordo com um estudo britânico publicado na edição de 10 de Maio último da revista Journal of Clinical Oncology, o tratamento com antidepressivos não aumenta o risco de nenhum tipo de cancro nas pessoas infectadas pelo VIH. Os investigadores analisaram a utilização por pessoas seropositivas tanto dos antidepressivos tricíclicos (fármacos mais antigos), como dos ISRSs (fármacos mais recentes), quer antes quer depois dos tratamentos anti-VIH eficazes se terem tornado disponíveis.

A sigla ISRS significa Inibidores Selectivos da Recaptação da Serotonina. Este grupo de fármacos inclui, por exemplo, a bem conhecida fluoxetina.

Existe informação contraditória sobre a relação do uso quer dos tricíclicos quer dos ISRSs com risco aumentado de cancro. Alguns estudos mostraram uma ligação entre o uso destas substâncias e o risco de alguns cancros, mas outros não. Por outro lado, outra investigação sugeriu que o tratamento com ISRSs poderia ter um efeito anti-cancerígeno em doentes com linfoma de Burkitt.

Nenhum estudo anterior havia analisado a possível relação entre o uso de antidepressivos tricíclicos ou ISRSs e o risco de cancro, em pessoas infectadas pelo VIH, quer antes quer depois do aparecimento dos tratamentos anti-retrovirais eficazes (ou seja, os tratamentos HAART). Nem qualquer outro estudo havia anteriormente investigado a possível ligação entre cancro e tratamento com antidepressivos e as classes individuais de fármacos anti-retrovirais.

Assim, e com este objectivo, um grupo de investigadores do London’s Chelsea and Westminster Hospital foi estudar os registos dos 11 000 doentes que tinham recebido tratamento anti-VIH nesse hospital. E descobriram que, do número total de doentes, 952 haviam recebido tratamento com um antidepressivo do grupo dos ISRSs e 919 com um antidepressivo tricíclico.

Um total de 144 desses doentes (9%) tinham sido tratados com um antidepressivo nos 3 meses anteriores a ter-lhes sido feito o diagnóstico de cancro.

Mas os investigadores não conseguiram descobrir qualquer associação entre o uso de qualquer tipo de antidepressivo e o desenvolvimento de cancro, tanto no período anterior como no período posterior à introdução do tratamento ARV (anti-retroviral) eficaz. Também não encontraram qualquer relação entre o uso de antidepressivos (de qualquer tipo) e risco de cancro, nos doentes a tomar fármacos de qualquer das classes de ARVs.

O único factor para o qual descobriram uma relação com o risco de cancro, foi uma contagem baixa de CD4s.

Além disso, o estudo não conseguiu mostrar a presença de quaisquer efeitos do tratamento com ISRSs – positivos ou negativos – em doentes com o diagnóstico de linfoma não-Hodgkin, sarcoma de Kaposi, linfomas do sistema nervoso central ou linfoma de Burkitt.

“Descobrimos que, em indivíduos infectados com VIH, predispostos a uma ampla variedade de cancros, os vários antidepressivos estudados não estão associados com uma alteração do risco de cancro, tanto na era pré-HAART, como na era pós-HAART”, escrevem os investigadores.

Os investigadores destacam ainda os potenciais benefícios do tratamento antidepressivo em algumas pessoas seropositivas com depressão, referindo-se a estudos que mostram que o uso desses fármacos pode estimular e aumentar a adesão aos tratamentos ARVs nesses doentes.

Referência

Stebbing J et al. Use of antidepressants and the risk of cancer in individuals infected with HIV. Journal of Clinical Oncology 14: 2305 – 2310, 2008.