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Taxas baixas de eliminação espontânea do vírus da hepatite C em doentes com VIH; recomenda-se o tratamento precoce do VIH para quem tem hepatite C crónica
Michael Carter, Monday, October 13, 2008
De acordo com um estudo conduzido por investigadores europeus e publicado na 1a edição de Novembro do Journal of Infectious Diseases, cerca de um quarto dos doentes co-infectados pelo VIH e pelo vírus da hepatite C eliminam espontaneamente a infecção pelo vírus da hepatite C.

Os investigadores constataram, também, que as mulheres tinham mais probabilidade de eliminar espontaneamente a infecção pelo vírus da hepatite C (VHC), bem como os homens gay, as pessoas infectadas com o vírus da hepatite B e os doentes que vivem no Norte da Europa.

Entre os doentes com infecção crónica por VHC, a maioria estava infectada com o genótipo 1 e tinha uma carga viral elevada do vírus da hepatite C, características que estão associadas a uma fraca resposta ao tratamento desta infecção. Os autores do editorial que acompanha o estudo sugerem que os doentes com estas características deveriam receber “tratamento anti-retroviral precocemente” como “a melhor forma de evitar o insucesso do tratamento da doença hepática”.

Os investigadores da coorte alargada de estudo EuroSIDA tentaram calcular o número de doentes seropositivos que foram infectados pelo vírus da hepatite C, mas que o tinham eliminado espontaneamente. Também quiseram determinar as características virológicas da hepatite C em doentes com infecção crónica.

Desta coorte, foram recrutados um total de 14.310 doentes elegíveis para inclusão no estudo, em 93 centros de tratamento de toda a Europa, mas também na Argentina e em Israel. Foram armazenadas amostras para testar o ARN do vírus da hepatite C de todos os doentes com anticorpos para a hepatite C. Nos doentes com carga viral detectável para VHC foi realizada a respectiva quantificação e a determinação do genótipo.

Pouco menos de um quarto (24%) da coorte EuroSIDA tinha anticorpos para a hepatite C. No entanto, os investigadores excluiram1435 doentes que não tinham amostras armazenadas do plasma para análise. Assim, a população do estudo contou com 1940 pessoas.

A eliminação espontânea da infecção pelo vírus da hepatite C ocorreu em 444 (23%) dos doentes. Os factores associados à eliminação espontânea foram o sexo feminino (rácio de probabilidades ajustado, 1,39; 95% IC: 1,06 - 1,81, p = 0,017), a co-infecção pelo vírus da hepatite B identificada pelo antigénio de superfície da hepatite B (rácio de probabilidades ajustado, 2,91; 95% IC: 1,94 - 4,38, p < 0,001) e o facto de residir no Norte da Europa vs Europa de Leste e do Sul (rácio de probabilidades ajustado, 1,45; 95% IC: 1,05 - 2,09, p = 0,032).

Além disso, os investigadores constataram que os utilizadores de drogas injectáveis (20%) tinham significativamente menos probabilidade de eliminar a hepatite C espontaneamente do que os homossexuais (39%) (rácio de probabilidades ajustado, 1,36; 95% IC: 0,24 - 0,53, p < 0,001).

Os investigadores concentraram então a sua atenção nos 1496 doentes com infecção crónica pelo vírus da hepatite C. Chegaram à conclusão que a maioria dos doentes estavam infectados com genótipos da hepatite C que tinham resposta mais fraca ao tratamento padrão actual: interferão peguilado e ribavirina. Cerca de 786 doentes (53%) estavam infectados com o genótipo 1 da hepatite C e 217 (15%) estavam infectados com o genótipo 4.

A carga viral média do VHC estava um pouco acima de 570.000 IU/ml. No entanto, os doentes com infecção pelo genótipo 1 tinham uma carga viral média de 776.000 UI/ml.

Os investigadores referem que cerca de um terço dos doentes apenas infectados pelo VHC eliminam o vírus, em comparação com pouco mais de um quarto dos doentes na coorte. Sugerem que isto pode ser devido à supressão imunitária provocada pelo VIH. Mas notam também que, devido ao elevado número de utilizadores de drogas injectáveis no estudo, a reinfecção pelo vírus da hepatite C pode ser uma explicação.

O editorial que acompanha o estudo sugere que uma única carga viral negativa de VHC, o limiar usado pelos investigadores para a eliminação da hepatite C, não é um indicador fiável da cura espontânea da hepatite C. Sugerem que “deveria ser feita uma avaliação mais meticulosa da eliminação viral nos doentes, usando um teste mais sensível, tal como a amplificação mediada por transcrição”.

Quanto à maior probabilidade de cura espontânea para os doentes do Norte da Europa, os autores sugerem que “a eliminação espontânea do vírus da hepatite C não depende apenas de factores virais e imunológicos ou categoria de risco, mas também depende da localização geográfica e outros factores do hospedeiro”. Referem uma investigação francesa anterior que sugeriu que as variações genéticas no vírus da hepatite C em homens e mulheres estavam associadas à probabilidade de cura espontânea ou à resposta ao tratamento.

Os doentes infectados com o genótipo mais difícil de tratar e que têm uma carga viral elevada deveriam receber precocemente terapêutica anti-retroviral para melhorar as funções imunitárias e como “o melhor modo de evitar uma fraca resposta ao tratamento da hepatite C”.

Referências
Soriano V et al. Spontaneous viral clearance, viral load, and genotype distribution of hepatitis C virus (HCV) in HIV-infected patients with anti-HCV antibodies in Europe. J Infect Dis 198 (edição online), 2008.

Raffaele B et al. Spontaneous hepatitis C virus clearance in HIV-infected patients: new insights for improving management. J Infect Dis 198 (edição online), 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA