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A co-infecção VIH/VHC pode aumentar o risco de doença cardíaco e AVC nas pessoas com VIH
Liz Highleyman, Wednesday, August 13, 2008
A co-infecção com o vírus da hepatite C (VHC) pode estar associada a um risco de aumento de doença cardiovascular, tal como enfarte do miocárdio e AVC, apesar das pessoas com hepatite C terem níveis mais baixos de colesterol, de acordo com um estudo apresentado na quinta-feira na XVII Conferência Internacional de SIDA, na cidade do México.

A doenças cardiovascular tornou-se uma preocupação crescente com o aumento da esperança de vida das pessoas infectadas pelo VIH. Com o tempo, a aterosclerose (espessamento e endurecimento das artérias) pode conduzir a enfartes do miocárdio e AVC dada a diminuição do fluxo sanguíneo para os músculos do coração ou para o cérebro. Vários estudos demonstraram que pessoas seropositivas medicadas com terapêutica anti-retroviral têm um risco maior de doença cardiovascular, em parte devido a níveis elevados de colesterol e de triglicéridos.

A investigação tem demonstrado que as pessoas com hepatite C têm menos probabilidades de ter níveis lipídicos anómalos, mas estão mais susceptíveis a complicações metabólicas, tais como, resistência à insulina e acumulação de gordura no fígado (esteatose). Todavia, não se sabe de que forma como a co-infecção com hepatite C influencia os níveis dos lípidos, ou outras alterações metabólicas relacionadas com a infecção pelo VIH ou o seu tratamento, nem mesmo qual será o impacto de tudo isto no risco de doença cardiovascular.

Roger Bedimo e os seus colegas americanos analisaram dados provenientes do Veterans Administration Clinical Case Registry, para perceber qual o impacto da co-infecção VIH/hepatite C no risco de enfarte agudo do miocárdio e de doença cerebrovascular (AVC) depois de despistarem outros factores de risco. Este registo (Veterans Administration Clinical Case Registry) inclui mais de 20.000 doentes seropositivos, dos quais um terço tem também hepatite C.

Os investigadores identificaram indivíduos co-infectados na base de dados que tinham sofrido enfarte agudo do miocárdio ou AVC. Compararam então os riscos deste tipo de ocorrência na época pré-HAART (1980 a 1995) com a era pós-HAART (1996 a 2004), isto é antes e depois da terapêutica de combinação ter sido introduzida.

Corroborando estudos anteriores, as pessoas com hepatite C tinham menos probabilidade de ter níveis altos de gordura no sangue ou de estar a tomar medicação para a redução dos lípidos. Durante todo o período do estudo, 18% dos doentes co-infectados apresentavam níveis de colesterol total acima de 240 mg/dL, comparados com 27% nas pessoas infectadas apenas com VIH (p < 0.001). Para aos níveis dos triglicéridos acima de 200 mg/L, as percentagens correspondentes foram de 55% e 60% respectivamente (p < 0.001). As pessoas apenas infectadas com VIH aumentaram as probabilidades de terem colesterol alto depois do advento da HAART (aumentando de 24% para 31%), mas a percentagem não se alterou entre os pacientes co-infectados. A probabilidade de se observar níveis elevados de triglicéridos decresceu em ambos os grupos.

De forma geral, os factores de risco tradicionais, tais como, a idade mais avançada, diabetes e hipertensão eram preditivos de risco elevado de enfarte agudo do miocárdio ou AVC, com uma excepção. Estranhamente, o tabaco não estava associado a um risco elevado de doença cardiovascular – de facto, tinha um efeito protector em relação ao AVC –, uma descoberta para a que os investigadores foram incapazes de explicar.

Antes do aparecimento da HAART, a co-infecção VIH/Hepatite C estava associada a um aumento de 40% do risco de enfarte agudo do miocárdio ou doenças cerebrovasculares. Durante a era HAART, a taxa de enfarte agudo do miocárdio era de 3,36 por 1000 pessoas/ano para as pessoas seropositivas para o VIH e de 4,19 por 1000 pessoas/ano nas as pessoas co-infectadas.

Para as doenças cerebrovasculares na era HAART, as taxas correspondentes eram de 11,12 e 12,47 por 1000 pessoas/ano para as pessoas mono-infectadas com VIH e co-infectados com VIH/Hepatite C, respectivamente. Numa análise ajustada, isto representa um aumento de risco de 20%, o que foi estatisticamente significativo (HR ajustada1,20; p= 0,0013).

Os investigadores concluíram que a co-infecção VIH/Hepatite C era um factor de risco independente no que diz respeito ao enfarte agudo do miocárdio e a doenças cerebrovasculares, antes do aparecimento da HAART. Depois da introdução da terapêutica eficaz de combinação, este efeito parece desaparecer para o enfarte agudo do miocárdio, mas não para o AVC, pois apesar de a co-infecção não ser um factor preditivo de enfarte agudo do miocárdio, mantinha-se significativamente associado aos AVC. Todavia, o impacto da co-infecção no risco de enfarte agudo do miocárdio continuou a ser significativo para os doentes com mais de 60 anos.

Com base nestas conclusões, os investigadores recomendaram que, quando se analisa o risco de doença cardiovascular em pessoas com o VIH/SIDA, é necessário “o ajuste para o factor infecção pelo VHC”.

Referência

Bedimo R et al. HCV co-infection and risk of acute myocardial and cerebrovascular disease among HIV-infected patients in the pre-HAART and HAART eras. XVII International AIDS Conference, Mexico City, abstract THAB0205, 2008.