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Infecciosidade e terapêutica anti-retroviral: um relatório que acrescenta dados ao debate
Michael Carter, Wednesday, September 03, 2008
De acordo com um artigo da autoria de médicos alemães publicado na revista Antiviral Therapy, um homem transmitiu o VIH ao seu parceiro regular apesar de estar sob terapêutica anti-retroviral e de ter carga viral indetectável no sangue. Os autores acreditam que este é o primeiro caso documentado de transmissão sexual a partir de uma pessoa com carga viral indetectável.

No editorial que acompanha a descrição do caso, dois dos autores do que veio a denominar-se como “Declaração Suíça”, embora admitindo a existência de um risco “muito baixo” de transmissão a partir de pessoas que estão medicadas com terapêutica anti-retroviral e que apresentam carga viral indetectável, sublinham aquilo que consideram ser algumas das fraquezas da documentação do referido caso. Para além disso afirmam que, com base na sua própria experiência, “todos os casos suspeitos de transmissão sob terapêutica anti-retroviral tinham outra fonte de infecção.”

E um outro estudo publicado separadamente parece igualmente acrescentar mais dados ao debate, já bastante acalorado, sobre a infecciosidade dos doentes sob tratamento anti-retroviral. Investigadores franceses publicaram na edição de 20 de Agosto da revista AIDS, um artigo que afirma que 5% dos homens sob terapêutica anti-retroviral com carga viral indetectável no sangue, tinham VIH detectável no esperma. Nenhum destes homens tinha infecções de transmissão sexual.

Em Janeiro deste ano, especialistas em infecção pelo VIH da Suíça emitiram uma declaração que afirmava que as pessoas seropositivas para o VIH tratadas com medicamentos anti-retrovirais, com boa adesão ao tratamento, com carga viral inferior a 40 cópias/ml durante pelo menos 6 meses e sem infecções de transmissão sexual, não deveriam ser considerados como capazes de transmitir sexualmente o VIH. Esta declaração controversa provocou um debate aceso acerca da infecciosidade dos doentes a fazer terapêutica anti-retroviral com sucesso, na recente Conferência Internacional de SIDA na Cidade do México.

Na conferência foi igualmente afirmado que o caso documentado de transmissão com a mais baixa carga viral tinha ocorrido com um valor aproximadamente de 300 cópias/ml. Agora, médicos na Alemanha relatam um caso de transmissão num doente sob medicação anti-retroviral com carga viral indetectável mantida no sangue.

Este caso envolveu um homossexual de 39 anos de idade, que iniciou tratamento anti-retroviral em 1999. Estava medicado desde 2000 com uma combinação de AZT, 3TC e nevirapina e apresentando carga viral indetectável. Mantinha, desde então, uma relação monogâmica com um homem da mesma idade.

O parceiro referiu que tinha efectuado um teste de despistagem anónima do VIH em 2002 e a verificação dos registos no referido centro anónimo de despistagem confirmou que, no período referido por este, apenas tinha sido realizado um teste com resultado negativo. O casal relatou ter praticado penetração anal sem protecção diversas vezes desde Maio de 2003. Não há informação sobre se o doente ou o seu parceiro eram insertivos ou receptivos ou ambos e os autores não clarificaram estes aspectos quando foram contactos pelo aidsmap.com, por email.

Em Julho de 2004, o parceiro do doente seropositivo foi diagnosticado com VIH e as análises realizadas de imediato revelaram uma contagem de células CD4 de 338/mm3 e uma carga viral de 21.800 cópias/ml, um valor baixo para uma pessoa em fase de seroconversão.

Os investigadores realizaram uma análise filogenética que sugeriu uma relação próxima entre o vírus do doente e o que foi encontrado no seu parceiro. Nenhum dos parceiros referiu qualquer infecção sexualmente transmissível.

“Estamos confiantes”, escrevem os autores do artigo, “que este caso sugere que a transmissão pode ocorrer apesar de existir carga viral indetectável no plasma. Assim, não podemos apoiar uma recomendação que abandona o uso de práticas de sexo seguro neste contexto, sem mencionar a possibilidade de transmissão do VIH.”

Mas os autores do editorial que acompanha o artigo deste caso clínico, realçam aquilo que eles consideram ser as fraquezas do caso relatado. Embora reconheçam que a análise filogenética indique uma relação entre o vírus dos dois indivíduos, afirmam que “uma infecção por uma terceira pessoa só pode ser excluída através da história sexual, o que no caso referido é notoriamente pouco credível.”

Sugerem ainda que “a documentação de um teste de detecção de anticorpos não identificado realizado há mais de cinco anos é um ponto fraco deste caso clínico.”

Contudo, os autores do editorial também acreditam que mesmo um caso bem documentado de transmissão sexual envolvendo um doente sob terapêutica anti-retroviral com carga viral indetectável “não indicaria que esta prática está associada a um risco de magnitude suficiente com implicações para a saúde pública.” E fazem a analogia com o sexo oral, havendo casos relatados de transmissão do VIH.

Carga viral detectável no esperma quando existe carga viral indetectável na sangue

Um outro estudo francês concluiu que 5% de 145 homens seropositivos para o VIH incluídos num grupo de estudo de fertilização, tinham carga viral detectável no esperma, apesar de terem carga viral indetectável no sangue.

Os homens forneceram amostras simultâneas de sangue e esperma entre 2002 e Janeiro de 2008. O limite de detecção do VIH no sangue era de 40 cópias/ml e 200 cópias/ml no esperma. Na maioria das amostras (85%), o VIH era indetectável no sangue e no esperma.

Mas em 3% das amostras era detectável em ambos os fluídos corporais e em 6% a carga viral era indetectável no esperma, mas detectável no sangue. As restantes 5% de amostras simultâneas mostravam que o VIH era indetectável no sangue, mas detectável no esperma.

Os investigadores referem que estes 5% de doentes estavam todos sob terapêutica anti-retroviral há pelo menos seis meses e que mantinham uma carga viral inferior a 40 cópias/ml. Para além disso nenhum dos doentes tinha uma infecção de transmissão sexual documentada.

Com base nestes resultados os autores concluem “nos casais serodiscordantes que desejem ter um filho, as técnicas de reprodução assistida continuam a ser o método de referência para evitar a transmissão do VIH, sempre que estiverem acessíveis.”

Referência:
Sturmer M et al. Is transmission of HIV-1 in non-viraemic serodiscordant couples possible? Antiviral Therapy 13: 729 – 732, 2008.

Vernazza P et al. HIV transmission hunting – the chase for low risk events. Antiviral Therapy 13: 641 - 642, 2008.

Marcelin A-G et al. Detection of HIV-1 RNA in seminal plasma samples from treated patients with undetectable HIV-1 RNA in blood plasma. AIDS 22: 1677 – 79, 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA